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  • Foto do escritorCasa Cultiva

O quartinho das emoções

Uma metáfora sobre como lidamos com os nossos sentimentos mais dolorosos

Se você chegou aqui por ter acompanhado nossos posts do Instagram (aqui e aqui) sobre empilhar sentimentos e se permitir olhar para suas emoções dolorosas, já entendeu que ignorar ou fugir dos sentimentos difíceis não te ajuda a fazê-los sumir. Na verdade, é justamente o oposto: quanto mais tempo você foge deles, mais tempo ficará preso nesses sentimentos e/ou no estado emocional resultante deles, já que a única resposta é poder ouvi-los, e, quem, sabe, atender às suas necessidades, desfazendo aquela pilha de sentimentos que mascarava a dor inicial.


Gosto de pensar como se nossa relação com as nossas emoções fosse representada através de um pequeno quarto. Como todo cômodo, existe uma porta de entrada. Nós podemos deixar essa porta escancarada para entrar qualquer emoção a qualquer momento, invadindo nosso espaço, fazendo sentirmos muito de tudo, aquilo que gostamos, mas também o que não gostamos. Podemos também deixar a porta entreaberta, fazendo nos sentirmos não tão expostos a qualquer visita em qualquer momento, permitindo, mesmo que limitada, uma livre passagem aos visitantes, ou seja, nossas emoções.


Podemos, ainda, fechar a porta, deixando um aviso de “não perturbe” do lado de fora, mas ainda assim, quando alguém bater na porta, perguntar quem é antes de abrir, filtrando os sentimentos visitantes. E nós também podemos trancar a porta a sete chaves e correntes, deixando claro que nenhum visitante é bem-vindo. Pode ser que isso traga uma sensação de segurança, sabendo que ninguém vai perturbar, que aquele é nosso espaço privado e seguro.


O que nós não sabemos, é que não existe porta resistente o suficiente, ao longo da vida, para trancar todos os sentimentos do lado de fora do nosso quartinho. Por algum tempo, nós até conseguimos... Nossos visitantes chegam, batem na porta. Nós não respondemos, e então eles vão embora. Assim era como Antônio lidava com os visitantes no seu quartinho.

Chegavam dos mais diversos visitantes na porta do pequeno quarto de Antônio: os espalhafatosos, os mais tímidos, os revoltados, e, também aqueles que vinham de tempos em tempos perguntar se ele precisava de algo, os visitantes que queriam acolhê-lo. Mas, independente da visita, Antônio as ignorava sempre, e se sentia incomodado e perturbado por quaisquer emoções visitantes que batiam à porta.


Em algum momento, após tantas visitas serem ignoradas, elas passaram a se sentir desrespeitadas, frustradas, ofendidas. Elas perceberam quem não importava quem aparecesse ou o porquê da visita, não poderiam ser ouvidas nem recebidas. Então, elas começaram a gritar do lado de fora. Organizaram um motim em frente à porta. Elas protestavam: “Isso não é justo! Você precisa nos ouvir! Ignorar nossa existência não vai fazer a gente sumir!”. E nada mudava, nenhuma resposta. Antônio seguia as ignorando. Os gritos e protestos então se intensificaram. E aí, o quartinho do nosso amigo Antônio que parecia tão seguro, fez com que ele duvidasse da sua capacidade de anestesiar aquilo que ele não podia ver do lado de fora do quarto.


Antônio seguiu ouvindo os visitantes raivosos do lado de fora, e, então, acompanhou os protestos se tornarem ameaças: “Se você não abrir, Antônio, vamos derrubar a porta!”.

Com medo da ameaça, Antônio decidiu colocar mais correntes na porta, para evitar que invadissem seu pequeno quarto. Com o tempo, cada vez mais visitantes se acumulavam e se mobilizavam coletivamente com o objetivo de entrar no seu quartinho. Foi aí que Antônio sentiu que estava perdendo o controle da situação.


Sem mais correntes e forças para seguir segurando a porta, os visitantes então patrolaram a entrada do pequeno quarto de Antônio e entraram todos ao mesmo tempo. No desespero daquela cena, Antônio corria desesperadamente em círculos dentro do pequeno quarto: “Não há lugar para todos aqui dentro, vão embora! O que querem de mim?! Me deixem em paz!!”. Antônio seguia correndo, no seu pequeno quarto, mas não havia saída. A cena, tragicômica, ora parecia um cachorro correndo atrás do próprio rabo, ora Antônio se via encurralado nos cantos, com pilhas e pilhas de visitantes em cima de si, sendo soterrado pelos seus próprios visitantes, pela sua raiva de não terem sido ouvidos e respeitados... Ele se viu sucumbindo pela pressão de suas visitas, as emoções silenciadas ao longo do tempo. Pilhas e pilhas de visitantes-sentimentos não ouvidos. Antônio via a cena em câmera lenta e, com tudo acontecendo ao mesmo tempo, sem entender o que cada visitante dizia, se sentia confuso, exausto e paralisado. Antônio se vira encurralado naquele lugar que antes fora seu lugar seguro.


Já havia sido exaustivo e desgastante ter se protegido tanto tempo dentro do seu pequeno quarto, procurando novas grades e proteções para a porta, tendo que ouvir tanto tempo aqueles visitantes indesejados do lado de fora... E agora, sentia-se sem forças para lidar com o alvoroço que virou o seu  quartinho. Antônio não sabia o que fazer. Se sentia encurralado e sufocado. Não havia saída.


Em algum momento, uma voz sugere pedir licença para os sentimentos que o soterravam e encurralavam no canto do quarto, o convidando a organizar aquela cena catastrófica e desesperadora. Essa voz o convida a ouvir seus sentimentos. Ela disse que, se Antônio permitisse que cada visitante tivesse um momento para falar, talvez eles se acalmassem e aceitasem sair de cima dele, o liberando da sobrecarga. Mesmo um pouco resistente, não vendo nenhuma outra saída, Antônio decidiu tentar.


Com dificuldade, foi tentando se mover por baixo das pilhas de visitantes-sentimentos, se mexendo e falando com dificuldade e revolta: “Olha, eu não sei por que vocês me perturbam tanto. Eu estou confuso e não sei o que querem de mim, queria só ficar sozinho, queria ficar em paz. Eu tentei por muito tempo. Vocês estão me enlouquecendo! Eu queria muito que fossem embora. Por favor, me deixem em paz! Se têm algo a dizer, por favor, digam e me deixem em paz no meu canto! Eu só quero ficar sozinho.”


A voz sugere que Antônio seja mais gentil. Que talvez, os visitantes precisem se sentir validados. “Eles estão dizendo que tem uma mensagem importante para você, Antônio. Você tem sido rude demais com eles. Eles querem apenas ser ouvidos”, diz a voz com delicadeza.

Antônio então se revolta: “Eu também quero ser ouvido! E quem é que vai me ouvir?!”.

“Mas os visitantes não são todos uma parte de você mesmo?”, diz a voz, em tom suave.

“Então você tá dizendo que eu não consigo me ouvir?”, Antônio pergunta à voz.

“Como isso soa para você?”, pergunta a voz, em tom cuidadoso.

“Eu acho que não consigo me ouvir mesmo. Porque eu não quero. Não quero ouvir nada, já está tudo tão difícil. Só vai piorar... Eu estou tão cansado... Eu só quero que isso passe! Eu só quero ficar em paz...”, Antônio replica, com a voz trêmula e os olhos marejados.

“Eu quero te ouvir. Eu quero ouvir você por inteiro. Quando vejo você assim, dói em mim. Não imagino como seja difícil pra você...”, diz a voz, se conectando emocionalmente com Antônio.

“É horrível. Eu nem consigo explicar... Eu não quero... Eu não deveria... Mas... Eu não sei mais o que fazer, sinto que as visitas vão me sufocar cada vez mais. Não parece fazer sentido o que você está sugerindo...”

“Eu entendo... E sinto muito que você se sinta assim... Mas, e quem sabe se você experimentar? Afinal, não dar voz aos visitantes parece ter te deixado mais sobrecarregado... Talvez você possa tentar um caminho diferente...”, sugere a voz.


Exausto e desesperançoso, Antônio decidiu seguir a sugestão, já que não visualizava nenhuma outra saída para lidar com seu desespero, confusão e sobrecarga. Organizou uma lista de espera, garantindo que todos os sentimentos visitantes, em algum momento, seriam ouvidos. E, então, Antônio começou a entender, conforme foi ouvindo cada visitante-sentimento, que quanto melhor os recebia, mais satisfeitos e acolhidos eles se sentiam. Com o passar do tempo, suas visitas, antes revoltadas, passaram a se sentir compreendidas, ouvidas, validadas. O clima foi ficando menos tenso no pequeno quarto de Antônio. Por vezes, ele até conseguia rir junto com alguns dos sentimentos visitantes.


Antônio passou a deixar a porta de seu pequeno quarto fechada, mas agora livre de correntes. Quando se sente disposto, convida as visitas, sem que elas precisem implorar por sua atenção. Agora ele as recebe com chá e biscoitos. Antônio renovou a decoração do quartinho. Ele não tem mais vontade de se esconder nos cantos, pois se sente tão mais parte desse lugar agora... Foi ele quem cuidou desse espaço e escolheu cada detalhe. Existe uma cama para repousar e se encolher, com a coberta o abraçando, sozinho. Mas também existem as poltronas e o sofá para receber com carinho suas visitas.


Ali, no pequeno quarto, é seu lugar seguro, e ele aprendeu que pode deixar entrar os visitantes-sentimentos, e que também pode escolher o momento das visitas. Eventualmente algumas delas seguem sendo inoportunas, escancarando a porta e vasculhando seu espaço. Então ele tenta ouvi-las e orientar que aquele é seu espaço, e, que, para se entenderem, precisarão se respeitar. Muitas vezes dá certo, outras não... Mas Antônio compreendeu que cada visitante-sentimento tem uma necessidade diferente, e nem sempre ele estará pronto para entender. Antônio sabe que não tem o controle de tudo... Mas se sente confiante para lidar, mesmo que não tenha as respostas. Pois agora ele consegue nomear os visitantes e organizá-los no seu espaço. Eles conseguem dialogar, mesmo que nem sempre cheguem a um consenso ou compreensão total um do outro.


Antônio, finalmente, sente que pertence e conhece seu quartinho das emoções. “Ah! E eu não poderia esquecer de compartilhar que eu finalmente pude conhecer uma outra porta no meu pequeno quarto”, Antônio exclama com empolgação, e segue: “Uma porta de vidro, que estava coberta por um armário velho, cheio de coisas que eu nem sabia mais o que havia dentro. Quando modifiquei e redecorei o quarto, pude me desfazer desse armário que impedia a luz de entrar. E também me impedia de ver que além da porta de entrada, havia uma porta de saída. Às vezes ela resolve que não vai abrir, me deixando mais tempo com algumas visitas que podem ser um tanto inconvenientes, fazendo eu me sentir encurralado de novo... Mas estou aprendendo que, talvez eu precise ficar mais tempo na companhia de algumas dessas visitas, mesmo que eu não queira. De toda forma, nesses momentos eu sempre lembro que nenhuma visita é eterna, e olhar para a porta de vidro faz eu me sentir mais em paz no meu quartinho”.


Depois de passar tanto tempo dentro do seu pequeno quarto, entendendo como tornar ele um lugar confortável, seguro e mais conhecido para si, Antônio foi se permitindo sair mais de dentro dele. E tem se permitido visitar os quartinhos de outras pessoas que lhe dão acesso aos espaços delas.


Bom, mas talvez agora você possa estar se perguntando: “De onde veio aquela voz que sugeriu que Antônio ouvisse os visitantes?” Bueno, essa voz, na verdade... Não é de um lugar só. Antônio me contou que: “Eventualmente, ela pode ser de alguém muito importante para mim, que me vê por inteiro, e entende o que preciso. Eventualmente ela pode ser um dos meus próprios visitantes-sentimentos. Mas independente se vem de um visitante interno ou externo, geralmente vem acompanhada de um ingrediente especial, chamado compaixão".

 

Texto por Daniele Lindern

Psicoterapeuta e sócia da Casa Cultiva

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